*Laurinha Lucena
O Carnaval de Chapada dos Guimarães movimenta recursos, atrai visitantes e projeta a cidade. Mas a experiência deste ano trouxe uma lição importante: o verdadeiro impacto acontece quando o investimento chega à comunidade.
Pela segunda vez, parte dos recursos públicos foi destinada aos blocos carnavalescos locais. Um avanço necessário e histórico. Durante muito tempo, a festa se concentrou em estruturas, atrações e grandes produções, enquanto a participação popular permanecia limitada.
A mudança, ainda que tímida, começa a mostrar resultados.
Na Aldeia Velha, um bloco comunitário deu origem à primeira escola de samba de Chapada dos Guimarães. A Unidos da Aldeia nasceu sem grandes patrocínios ou investimentos robustos. O que a sustentou foi o trabalho voluntário, a organização coletiva e o compromisso de moradores que acreditaram na força da cultura como expressão de identidade.
O desfile emocionou. Não apenas pela apresentação, mas pelo significado: comunidade mobilizada, talentos locais valorizados e um sentimento claro de pertencimento.
É justo reconhecer o papel de Luiz Borges, cuja persistência e dedicação foram fundamentais para transformar um sonho coletivo em realidade, mesmo diante de dificuldades e resistências.
A experiência da Unidos da Aldeia evidencia uma questão que precisa ser enfrentada: qual modelo de Carnaval — e de desenvolvimento — Chapada quer fortalecer?
Eventos são importantes. Geram movimento econômico e visibilidade. Mas quando os recursos públicos se concentram prioritariamente em grandes estruturas e atrações externas, o impacto local tende a ser passageiro.
Investir na base é diferente.
Fortalece a economia local.
Gera participação.
Cria continuidade.
E essa lógica precisa ir além do Carnaval.
Chapada dos Guimarães possui vocações naturais que sustentam o município o ano inteiro: o ecoturismo, o turismo de contemplação, a fotografia de natureza, a observação de aves, o turismo de aventura e as experiências ligadas à paisagem e à biodiversidade. Valorizar essas áreas significa investir em desenvolvimento permanente, sustentável e alinhado à identidade do território.
A Unidos da Aldeia mostrou um caminho.
Quando o recurso público chega à comunidade, o resultado aparece.
Quando a população participa, a cultura cria raízes.
Quando o investimento respeita as vocações locais, o desenvolvimento deixa de ser pontual.
Chapada não precisa apenas de grandes eventos.
Precisa de estratégia.
Precisa de continuidade.
Precisa investir mais na sua própria gente.
Porque é assim que a festa deixa de ser espetáculo — e se transforma em pertencimento.
Laurinha Lucena – é jornalista e guia regional de turismo em Chapada dos Guimarães, MT, onde exerce atua como diretora executiva da OCA (Organização Comunitária da Aldeia, responsável por colocar a escola de samba Unidos da Aldeia na avenida), ao lado do diretor presidente Luiz Borges.
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