A origem exata do trigo comum (Triticum aestivum) ainda é um mistério sem evidências claras. Mas um novo estudo dá novas pistas sobre a procedência desse alimento. A nova hipótese, publicada em um artigo da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 27 de abril, restringe a localização e o período à época neolítica (cerca de oito mil anos atrás) na Geórgia, país localizado na intersecção entre a Europa Oriental e a Ásia Ocidental.
Estudos dos materiais genéticos de plantas de trigo modernas e gramíneas selvagens indicam que o trigo domesticado e a grama-cabra selvagem se misturaram e deram origem a uma planta híbrida que, hoje, é o trigo comum que conhecemos. Ainda assim, não existem evidências concretas que confirmem que o cruzamento dos DNAs tenha ocorrido nesta região.
Comes e bebes
Para que os testes pudessem ser feitos, os pesquisadores precisaram ter à mão exemplares de plantas antigas. Para as encontrar, a equipe peneirou o solo e os detritos carbonizados escavados em dois sítios arqueológicos da Idade da Pedra, conhecidas como Gadachrili Gora e Shulaveris.
Acontece que procurar por grãos de trigo queimados e distingui-los de tipos semelhantes, como o trigo duro, não é fácil. Essa complexidade acontece porque, quando queimados, as gramíneas apresentam aparências similares, o que levou os pesquisadores a procurarem pelos ráquis, isto é, uma pequena parte do caule que prende o grão à espiga de trigo e que varia entre as espécies.
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Depois de tanta procura, eles encontraram segmentos de ráquis do trigo comum graças às suas laterais curvas e bordas finas. Testes de radiocarbono feitos em grãos soltos, encontrados junto aos caules, revelaram que esses vestígios têm, aproximadamente, seis mil anos.
No artigo, os autores destacaram que a identificação do trigo comum se encaixa na estrutura cronológica e geográfica proposta pelos dados genéticos. Não à toa, “essas descobertas fornecem suporte empírico crucial para esta região [sul do Cáucaso] como um centro primário de domesticação” de um dos alimentos mais consumidos do mundo atual.
As descobertas não pararam por aí: além de possivelmente terem dado ao mundo o trigo para o pão, as populações neolíticas do Cáucaso também podem ter sido as responsáveis pelos primeiros vinhos, há oito mil anos. A hipótese é resultado de análises que os pesquisadores fizeram em resíduos químicos de cerâmicas encontradas em aldeias antigas.
Esses assentamentos humanos eram povoados por agricultores primitivos, mas que utilizavam técnicas sofisticadas para a época. É provável que eles praticavam uma forma de agricultura itinerante, mudando-se de para um novo local quando o solo ao redor de uma aldeia se esgotava e retornando à área original anos depois, com o solo recuperado.
(Por Júlia Sardinha)

