O scanner capturou 320 imagens de seção transversal diferentes por rotação, que foram empilhadas para formar modelos digitais 3D das múmias — Foto: Ricardo Carrasco III

Um exame que normalmente serve para identificar fraturas, tumores ou lesões internas em hospitais foi usado para lançar nova luz sobre a vida (e a morte) de dois homens que viveram há mais de 2 mil anos. Radiologistas da Keck Medicine, braço médico da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, submeteram duas múmias egípcias a tomografias computadorizadas de última geração. O processo forneceu imagens detalhadas que permitiram reconstruir aspectos físicos, doenças e experiências pessoais desses indivíduos do Egito Antigo.

Os testes foram conduzidos com os exemplares conhecidos como Nes-Min, que viveu por volta de 330 a.C., e Nes-Hor, datado de cerca de 190 a.C., ambos sacerdotes. Apesar da idade das múmias, os pesquisadores adotaram protocolos semelhantes aos usados na medicina contemporânea, com o objetivo de identificar sinais de patologias, traumas e condições degenerativas, sem remover faixas ou danificar os corpos preservados.

Cada múmia foi escaneada ainda acomodada na base de seu sarcófago, com peso aproximado de 90 kg. As imagens revelaram não apenas ossos e articulações, mas também tecidos moles surpreendentemente preservados, incluindo contornos faciais como pálpebras, lábios e orelhas.

Em Nes-Min, chamou atenção a presença de uma vestimenta de rede adornada com contas coloridas e colares sobre o tronco, indicando status elevado e cuidado ritual no sepultamento. Veja imagens:

Vestígios de dor, envelhecimento e trauma

As análises apontaram que os dois sacerdotes conviveram com problemas de saúde comuns. No caso de Nes-Min, as imagens mostraram uma vértebra lombar lesionada, compatível com dor crônica nas costas, além de fraturas antigas na região torácica direita que haviam cicatrizado. Esses achados sugerem que ele sofreu um trauma significativo em vida, mas sobreviveu ao episódio.

Como lembra o jornal The New York Times, relatórios anteriores levantavam a hipótese de que Nes-Min teria morrido em decorrência de uma infecção dentária grave. No entanto, a nova rodada de tomografias, muito mais detalhada, não encontrou sinais do problema. Os pesquisadores também identificaram possíveis perfurações na coluna que podem indicar algum tipo de procedimento cirúrgico rudimentar — uma possibilidade considerada rara, e que ainda precisa ser confirmado para o período em questão.

Já Nes-Hor, que teria alcançado cerca de 60 anos, apresentou um quadro avançado de deterioração no quadril. Segundo os especialistas, a condição provavelmente causava dificuldades severas para caminhar, além de dor persistente. Problemas dentários também foram observados, reforçando a ideia de um envelhecimento marcado por limitações físicas.

“Quando observamos essas imagens, fica claro que muitas das doenças enfrentadas por essas pessoas continuam presentes hoje”, afirma Summer Decker, diretora do Centro de Inovação em Visualização Médica da USC e responsável pela coordenação do trabalho, em comunicado publicado nesta terça-feira (3). Para ela, o avanço da radiologia torna essencial reexaminar achados antigos e questionar conclusões estabelecidas com base em tecnologias menos precisas.

Aproximação de passado e presente

O tomógrafo utilizado no projeto é capaz de gerar até 320 imagens transversais por rotação, formando um conjunto de “fatias” com espessura inferior a meio milímetro. Esses dados foram processados digitalmente para criar modelos tridimensionais completos dos corpos.

A partir deles, a equipe produziu impressões 3D em tamanho real de crânios, colunas vertebrais, quadris e até de objetos funerários encontrados com as múmias, como escaravelhos cerimoniais. Essa mesma tecnologia é empregada rotineiramente na medicina moderna para planejar cirurgias complexas e ajudar pacientes a compreender melhor suas próprias condições clínicas.

No contexto arqueológico, ela permitiu com que os pesquisadores manuseassem réplicas exatas de estruturas frágeis e artefatos sem colocar em risco as peças milenares. E a ideia é que esse material não fique restrito a pesquisadores e acadêmicos.

Os resultados das tomografias e das reconstruções tridimensionais estarão acessíveis ao público na exposição “Múmias do Mundo”, que será inaugurada no California Science Center no próximo sábado (7). A mostra marca o retorno da exposição a Los Angeles, após uma longa circulação internacional, e apresenta múmias que nunca haviam sido exibidas na cidade.

Para Diane Perlov, antropóloga e vice-presidente sênior de projetos especiais do centro científico, a tecnologia tem um efeito que vai além da curiosidade científica. “Quando conseguimos enxergar a origem da dor nas costas ou no quadril, essas múmias deixam de ser objetos distantes e passam a ser reconhecidas como pessoas reais, com corpos que envelheceram e sofreram”, destaca ela.

Ao combinar arqueologia, medicina e visualização digital, o projeto oferece um retrato mais íntimo de indivíduos que viveram há mais de dois milênios, e reforça a ideia de que, apesar da distância histórica, as fragilidades do corpo humano permanecem notavelmente semelhantes ao longo do tempo.

(Por Arthur Almeida)

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