Estudantes de arqueologia da Universidade de Cambridge escavaram uma vala comum do século 9 — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridge

Uma escavação feita por arqueólogos e estudantes da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, revelou, nos arredores da cidade inglesa, um achado tão perturbador quanto raro: um poço funerário da Era Viking. Nele, foram avistados restos humanos completos e desmembrados, possivelmente ligados a execuções ou punições corporais ocorridas em meio aos conflitos entre saxões e vikings no século 9.

O local foi identificado durante uma escavação de treinamento realizada na primavera e no verão de 2025 em Wandlebury Country Park, cerca de 5 km ao sul de Cambridge. A área abriga um antigo forte da Idade do Ferro, com fossos e taludes construídos cerca de mil anos antes do período viking, mas que provavelmente continuou a funcionar como um ponto de encontro relevante na Alta Idade Média.

Cinco das cabeças descobertas na vala — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridge
Cinco das cabeças descobertas na vala — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridge

Dentro do poço estreito, de aproximadamente 4 metros por 1 metro, há restos de pelo menos dez indivíduos. O conjunto inclui quatro esqueletos completos, vários crânios sem corpos associados e uma concentração incomum de ossos das pernas empilhados – uma configuração considerada altamente atípica mesmo em sepultamentos coletivos.

“Antes de descobrirmos os primeiros restos humanos, nosso melhor achado havia sido uma tampinha de Smarties [confeitos de chocolate] dos anos 1960”, conta a estudante Olivia Courtney, hoje cursando o terceiro ano de arqueologia em Cambridge, em comunicado. “Nunca tinha encontrado restos humanos em uma escavação, e me impressionou o quanto essas pessoas pareciam ao mesmo tempo próximas e distantes.”

Cabeças, membros e sinais de execução

Segundo os arqueólogos de Cambridge, todos os indivíduos eram homens jovens e foram lançados no poço sem qualquer cuidado ritual. Alguns esqueletos estavam em posições que sugerem que as vítimas podem ter sido amarradas. Há ainda evidências claras de decapitação, como marcas de corte no maxilar de um dos crânios, além de outros traumas compatíveis com violência extrema.

Mesmo assim, a ausência de ferimentos típicos de combates medievais em larga escala torna improvável que o local represente apenas o rescaldo de uma batalha. Para Oscar Aldred, arqueólogo responsável pela escavação, o cenário aponta para algo ainda mais sombrio. “Os enterrados podem ter sido submetidos a punições corporais, e isso pode estar ligado a Wandlebury como um local sagrado ou de reunião amplamente conhecido”, afirma.

A presença de cabeças e membros separados, em alguns casos agrupados por tipo, reforça essa hipótese. “Pode ser que algumas dessas partes do corpo tenham sido exibidas anteriormente como troféus e depois reunidas e enterradas junto aos executados ou de outra forma massacrados”, sugere Aldred. Segundo ele, não há muitos indícios de esquartejamento deliberado. “Esses restos podem ter estado em decomposição e literalmente se desmanchando quando foram jogados no poço.”

O contexto histórico sustenta essa interpretação. Durante o século 9, Cambridgeshire funcionava como uma zona de fronteira instável entre o reino saxão da Mércia e o reino da Ânglia Oriental, conquistado pelos vikings por volta de 870 d.C. “Cambridgeshire era uma área fronteiriça entre Mércia e Ânglia Oriental, com guerras contínuas entre saxões e vikings disputando território ao longo de muitas décadas. Suspeitamos que o poço esteja relacionado a esses conflitos”, explica o pesquisador.

“Gigante” trepanado

Entre os esqueletos, um se destaca pelo tamanho. Trata-se de um jovem de 17 a 24 anos, encontrado de bruços no poço, que teria cerca de 1,95 metro – uma estatura considerada extraordinária para a época, quando a média masculina girava em torno de 1,68 metro.

Um dos crânios apresentava evidências de trepanação, uma forma antiga de cirurgia craniana — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridge
Um dos crânios apresentava evidências de trepanação, uma forma antiga de cirurgia craniana — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridge

Seu crânio apresenta um orifício oval de cerca de 3 cm, com sinais de cicatrização, indicando que o procedimento foi realizado enquanto ele ainda estava vivo. De acordo com a osteóloga Trish Biers, curadora das coleções Duckworth da Universidade de Cambridge, a pessoa pode ter sofrido de um tumor na glândula pituitária: “Ele pode ter tido um tumor que afetou a glândula pituitária e causou um excesso de hormônios do crescimento”.

“Tal condição no cérebro teria provocado aumento da pressão dentro do crânio, causando dores de cabeça, e a trepanação pode ter sido uma tentativa de aliviar esses sintomas”, acrescenta Biers, observando que intervenções desse tipo “não são incomuns hoje em casos de trauma craniano”.

Para os estudantes envolvidos, a descoberta teve forte impacto emocional. “Eu nunca esperaria encontrar algo assim em uma escavação de treinamento”, relata Grace Grandfield, graduanda de Cambridge que participou das escavações. “Foi um contraste chocante com o ambiente tranquilo de Wandlebury. Vários dos indivíduos tinham idade semelhante à minha, e foi uma experiência sóbria perceber, osso após osso, a dimensão do sofrimento que ocorreu ali.”

Os restos mortais passarão agora por análises mais detalhadas, incluindo estudos de DNA antigo e datação por isótopos, para investigar saúde, origem e possíveis laços de parentesco. Os arqueólogos também tentarão reconstituir ossos desmembrados para estabelecer com maior precisão quantas pessoas foram enterradas no poço.

Detalhes dos esqueletos encontrados no túmulo — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridge
Detalhes dos esqueletos encontrados no túmulo — Foto: David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge/Universidade de Cambridg

(Por Arthur Almeida)

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