O vírus Nipah, microrganismo causador de doenças que é transmitido por morcegos, está colocando a Índia em estado de alerta. Isso aconteceu após a confirmação de mais dois casos de infecção num hospital em Barasat, no extremo leste do país. As suspeitas sugerem que o vírus foi contraído a partir do contato com um paciente do hospital Narayana com sintomas respiratórios graves, que morreu antes de que testes sobre a infecção fossem conduzidos.
O vírus Nipah se destaca por ser extremamente letal, com estimativas apontando que até 75% dos infectados morrem devido a sequelas neurológicas graves, como encefalite aguda – inflamação do tecido cerebral. Os sintomas detectados vão desde febre, dor de garganta e dores musculares até problemas respiratórios e convulsões.
Essa alta letalidade inspirou, inclusive, o enredo do filme Contágio (2011). O longa, dirigido por Steven Soderbergh, retrata uma pandemia causada por uma versão do vírus meningoencefalítico que contém trechos de DNA de morcego e porco. No filme, a cadeia de contágio da infecção envolve morcegos e porcos, assim como o vírus Nipah. “Em algum lugar, de alguma forma, o morcego errado encontrou o porco errado”, diz a personagem Dra. Ally Hextall ao Dr. Ellis Cheever, pesquisador Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.
As coincidências também no fato de que ambas as infecções afetam células nos sistemas respiratório e nervoso. O filme também usa um modelo de proteína do vírus Nipah em uma cena que descreve a recombinação encontrada no vírus fictício.
Contágio retrata uma pandemia global nos tempos modernos com uma precisão científica que, de forma trágica, seria observada na vida real anos depois, com a pandemia de Covid-19. Entretanto, o vírus SARS-CoV-2 ainda não estava no centro de preocupações para possíveis epidemias como o vírus Nipah, que já havia matado, apenas em Bangladesh, cerca de 150 pessoas até o ano de lançamento do filme.
Ondas de surtos na Ásia
Como destaca este comunicado da organização internacional de saúde PATH, o vírus foi identificado pela primeira vez na Malásia em 1999, quando um surto entre criadores de porcos, transmissores da doença, matou 105 pessoas e causou o abate de mais de 1 milhão de animais. Desde então, o NIpah tem causado surtos recorrentes em países do sul e sudeste da Ásia. O problema é especialmente preocupante na Índia (estados indianos como Bengala Oriental e Kerala sofrem com surtos recorrentes) e em Bangladesh, onde surtos ocorrem todos os anos desde 2001.
Segundo o jornal The Telegraph, o caso de contágio mais recente em Barasat, em que duas enfermeiras foram infectadas – com uma delas se encontrando em estado crítico –, aumenta o receio de que a doença esteja se espalhando pela Índia sem ser detectada.
“A fonte de infecção mais provável é um paciente que já havia sido internado no mesmo hospital. Esse indivíduo está sendo tratado como o caso índice suspeito, e as investigações estão em andamento”, diz um alto funcionário da saúde envolvido nos esforços de vigilância do vírus Nipah em Bengala Ocidental ao jornal britânico.
Além da aplicação de uma quarentena e de medidas de vigilância de emergência na área, o Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar da Índia emitiu um alerta nacional para que os estados reforçem procedimentos de vigilância, detecção e prevenção para evitar qualquer propagação adicional do vírus.
Riscos entre transmissões
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Bangladesh, Índia, Malásia, Filipinas e Singapura são algumas das localidades que já notificaram casos de surtos dos vírus Nipah. Entretanto, morcegos hospedeiros do vírus – do gênero Pteropus – são encontrados em toda a Ásia e no Pacífico Sul, o que suscita receio de que a escala de contaminação possa aumentar.
Ainda assim, a transmissão entre humanos por meio do contato próximo com secreções e excreções deve ser alvo de atenção, já que, em diferentes situações, essa foi a forma mais comum de contaminação. De 2001 a 2008, por exemplo, cerca da metade dos casos notificados em Bangladesh ocorreram devido ao contato entre prestadores de cuidados à saúde e pacientes infectados.
“Temos observado repetidamente a transmissão de pessoa para pessoa em ambientes hospitalares. Quando os casos não são identificados precocemente, os profissionais de saúde ficam expostos ao maior risco de contrair esse vírus, muitas vezes fatal” afirma um alto funcionário da área de saúde do Government Medical College, no estado de Kerala.
(Por Fernanda Zibordi)

