Uma das oito inscrições deixadas por um homem chamado Cikai Korran no Vale dos Reis — Foto: Ingo Strauch

Em alguns museus e outros pontos turísticos, é comum encontrar um caderno de registro dos visitantes que passaram por lá. Mas, séculos antes dessa prática, alguns turistas decidiram deixar, por si próprios, a sua visita registrada. Um desses visitantes grafitou seu nome – Cikai Korran – oito vezes em tâmil antigo, uma língua indiana, quando visitou o Vale dos Reis, no Egito.

Além de Korran, outras pessoas deixaram as suas marcas em pelo menos uma das seis tumbas analisadas, onde faraós e nobres egípcios foram sepultados durante séculos. Pesquisadores encontraram cerca de 30 inscrições escritas em três línguas indianas e relataram as descobertas em uma conferência recente, realizada entre 11 e 14 de fevereiro em Chennai, na Índia.

O artigo referente às descobertas foi publicado no livro “Tamil Epigraphy: A four-day international conference 11-14 February 2026, Proceedings Volume 1” (Governo de Tamil Nadu, 2026). O estudo aponta crescentes evidências da presença de pessoas do sul da Ásia no antigo Egito.

Quando esses inscritos foram feitos?

Embora os primeiros egiptólogos tivessem notado essas inscrições e, em alguns casos, as tivessem registrado, eles não sabiam em que idioma estavam escritas nem conseguiam traduzi-las. Então, como parte de uma nova investigação, a equipe finalmente datou as inscrições indianas.

Ingo Strauch, da Universidade de Lausanne, na Suíça, afirmou, segundo o site Live Science, que as inscrições datam entre o primeiro e o terceiro séculos d.C., quando o Egito era uma província do Império Romano e o Vale dos Reis era “um destino turístico”.

Essa localização temporal só foi possível após os pesquisadores decifrarem um dos textos em sânscrito. Strauch contou que a inscrição estava no nome de um homem chamado Indranandin, que alegava ser um “mensageiro do Rei Kshaharata”, dinastia que governou parte da Índia durante o primeiro século d.C. Não está claro a qual Rei Kshaharata específico o mensageiro servia.

Para os pesquisadores, o problema é que, na época, a região era coordenada pelos romanos, o que levou a se considerar que Indranandin teria viajado pelo Vale dos Reis a caminho de Roma. “É possível que Indranandin tenha chegado de navio a Berenike [na costa leste do Egito], talvez junto com outros indianos, e de lá tenha continuado para o interior até o Vale dos Reis”, disse Strauch.

Cikai Korran

Entre todos os inscritos encontrados, alguns se destacaram por terem pertencido à mesma pessoa: Cikai Korran. Ao todo, foram oito inscrições em cinco túmulos diferentes com os dizeres “Cikai Korran veio aqui e viu”.

Outra inscrição deixada por Cikai Korran. As inscrições que ele deixou estão escritas em tâmil antigo — Foto: Timothee Sassolas
Outra inscrição deixada por Cikai Korran. As inscrições que ele deixou estão escritas em tâmil antigo — Foto: Timothee Sassolas

Mesmo frente aos fatos, Charlotte Schmid, da Escola Francesa do Extremo Oriente, afirmou que ainda não está claro quem era Korran. Há algumas pistas: o idioma em que ele escrevia, por exemplo, sugere que ele era do sul do país, mas é quase a única informação que se pode afirmar com certeza. Schmid observou que Korran poderia ter sido um chefe, um mercenário ou um comerciante.

Ainda que menos reveladoras sobre quem era esse homem, outras informações descobertas fornecem detalhes interessantes. Korran tinha o hábito de escrever suas inscrições em locais altos, como observado no túmulo de Ramsés IX, onde o registro foi encontrado a uma altura de 5 a 6 metros acima da entrada do túmulo. Os pesquisadores nem sequer sabem ao certo como ele conseguiu alcançar uma altura tão elevada.

Estudiosos também encontraram a assinatura de Korran na entrada de um túmulo que pertencia a dois faraós do Novo Império, Tausert e Setnakhte. Trata-se da única inscrição encontrada neste túmulo, o que sugere que, na época em que Korran estava no Egito, o interior do túmulo estava fechado e, mesmo assim, ele conseguiu encontrar a entrada para deixar sua inscrição.

As novas descobertas comprovam não apenas a presença de indianos no Egito, mas também abrem caminho para que outros achados de inscrições indianas sejam encontrados em sítios arqueológicos e templos egípcios.

(Por Júlia Sardinha)

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