Regurgitalitos são vômitos fossilizados de animais pré-históricos, representando restos de alimentos não digeridos, como ossos e exoesqueletos, expelidos antes da digestão completa — Foto: Sophie Fernandez

Naquela época, em um vale montanhoso, localizado na região central do supercontinente Pangeia, um predador de topo de cadeia alimentar – ancestral dos dinossauros – abocanhou, no mínimo, dois pequenos répteis e um anfíbio. O material encontrado no sítio fossilífero de Bromacker, na região central da Alemanha é o vômito dos ossos dessas presas, incluindo 41 fragmentos parcialmente digeridos e bem preservados.

Para Arnaud Rebillard, do Museu de História Natural de Berlim, o achado “é como uma fotografia de um momento no passado que nos conta algo sobre o animal que ali vivia”, disse, em entrevista à Science News. Entre as principais informações descobertas, o regurgitalito oferece novas evidências e perspectivas sobre as cadeias alimentares e sobre os ecossistemas terrestres antes da chegada dos dinossauros.

Réptil ou mamífero?

Paleontólogos encontraram os fósseis em 2021. O que foi descoberto desde então é resultado de uma descrição meticulosa de cada fragmento obtido por meio de digitalização 3D usando microtomografia de raios X.

Cada modelo escaneado dos ossos mostrava um conjunto de partes de diferentes animais, sugerindo que eles vieram, de fato, do intestino de um predador. Os resultados das análises químicas, por sua vez, revelaram um material ao redor dos ossos – uma espécie de matriz –, que descobriram ser pobre em fósforo. Essa característica sugeriu à equipe que o registro encontrado não se tratava de um excremento fossilizado, uma vez que, caso fosse, apresentaria maiores concentrações do mineral.

Fóssil está entre os pouco regurgitalitos identificados até guardava cerca de 41 fragmentos ósseos — Foto: Arnaud Rebillard
Fóssil está entre os pouco regurgitalitos identificados até guardava cerca de 41 fragmentos ósseos — Foto: Arnaud Rebillard

O predador específico que regurgitou os ossos ainda é desconhecido, mas os pesquisadores suspeitam que tenha sido um dos animais que mais se assemelha aos atuais lagartos-monitores ou como o dragão-de-komodo. Entre as possibilidades, as mais prováveis é que o predador tenha sido um Dimetrodon ou um Tambacarnifex.

Apesar da aparência reptiliana de ambas as espécies, as duas pertencem a um grupo de animais chamado sinapsídeos. Esse conjunto de animais é composto pelos mamíferos e pelos seus parentes distintos.

O regurgitalito encontrado reforça essa proximidade entre as espécies. Diversos predadores atuais têm o hábito de regurgitar ossos e outras partes do corpo difíceis de digerir após a alimentação. Mesmo que os cientistas não saibam se a origem do fóssil tenha sido por esse motivo, essa é uma das explicações mais plausíveis.

O período Permiano representa uma época em que grandes herbívoros se tornaram predominantes em ambientes continentais, seguidos por novos predadores — Foto: Nobu Tamura/Wikimedia Commons
O período Permiano representa uma época em que grandes herbívoros se tornaram predominantes em ambientes continentais, seguidos por novos predadores — Foto: Nobu Tamura/Wikimedia Commons

Entre os numerosos fragmentos ósseos encontrados, a equipe conseguiu distinguir dois pequenos répteis semelhantes a lagartos e um osso de membro de um herbívoro maior, também parecido com um réptil. Essa coleção de restos mortais indica que o predador se alimentava de tudo o que encontrava, ao invés de ter uma alimentação e presas específicas.

Uma das maiores certezas que os cientistas têm é que esses três animais diferentes encontrados no vômito fossilizado foram devorados por um único predador. “Podemos afirmar que esses três animais viviam exatamente no mesmo lugar e na mesma época, talvez com uma semana de diferença ou até mesmo um dia de diferença”, disse Rebillard.

Qual é a importância da descoberta?

O regurgitalito alemão é particularmente interessante porque o sítio de Bromacker preserva um instantâneo de um ecossistema terrestre primitivo. Isso porque os predadores mais antigos, capazes de se locomover em terra, geralmente viviam em ambientes semiaquáticos e possuíam uma dieta limitada à crustáceos e peixes.

Por conta desses fatores, fósseis de fezes e de vômitos são muito mais raros em ambientes continentais do que nos ambientes aquáticos. Por isso que esses registros são pistas valiosas para o estudo do passado da fauna terrestre, desde as espécimes de animais existentes até as redes alimentares e as organizações dos ecossistemas.

“Estamos falando de ecossistemas com quase 300 milhões de anos”, reforçou Rebillard. “Portanto, ter uma visão temporal tão precisa disso, do dia em que viviam, na mesma área e no mesmo momento, é extremamente fascinante”.

(Por Júlia Sardinha)

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