Um dragão de quatro garras pintado no interior de uma tigela. O verso da tigela apresenta painéis típicos de lótus em azul sob o esmalte — Foto: Michael Flecker

Uma embarcação que afundou entre 1340 e 1352 na costa do atual território de Singapura está redefinindo o entendimento histórico sobre o papel da ilha nas redes comerciais asiáticas medievais. Nomeado “Temasek Wreck”, o achado arqueológico produziu cerca de 3,5 toneladas de artefatos cerâmicos, incluindo exemplares intactos ou quase completos, constituindo o mais antigo naufrágio já identificado no país.

A escavação foi conduzida entre 2016 e 2019. Mas os detalhes sobre o trabalho vieram a público em um artigo publicado em outubro na revista científica Journal of International Ceramic Studies. O estudo é assinado pelo arqueólogo marítimo Michael Flecker, da HeritageSG, subsidiária do Conselho do Patrimônio Nacional de Singapura.

Diversidade de cerâmicas

Embora a maior parte do material esteja fragmentada, a integridade de alguns objetos, como garrafas com gargalo estreito e tigelas decoradas, permitiu análises tipológicas e cronológicas mais detalhadas. O conjunto inclui 136 kg de porcelana azul e branca produzida em Jingdezhen, quantidade superior à registrada em qualquer outro naufrágio documentado no mundo.

Pequeno prato azul e branco com uma fênix no centro e uma faixa de crisântemos na borda — Foto: Michael Flecker
Pequeno prato azul e branco com uma fênix no centro e uma faixa de crisântemos na borda — Foto: Michael Flecker

Entre as porcelanas, predominam tigelas decoradas com o motivo de patos-mandarins nadando em lagoas de lótus — um tema associado ao período inicial de produção sob a dinastia Yuan. Segundo o estudo, esse padrão tornou-se comum após 1340, quando passaram a valer normas imperiais menos severas.

Uma possível interrupção das atividades dos fornos de Jingdezhen em 1352, em razão das revoltas do Exército do Turbante Vermelho, está alinhada à estimativa de idade do naufrágio. Assim, a janela cronológica mais provável para o acidente se situa entre 1340 e 1352.

Para além da porcelana, também foram identificados na carga:

  • Cerâmicas do tipo celadon de Longquan;
  • Louças qingbai/shufu de Jingdezhen;
  • Peças de Dehua;
  • Itens provavelmente fabricados em fornos de Fujian;
  • Grandes jarros de armazenamento e recipientes com gargalo estreita de Cizao.

Destino provável

À época do naufrágio, Singapura era conhecida como Temasek e funcionava como entreposto estratégico no sudeste asiático. A comparação entre as cerâmicas do naufrágio e materiais escavados em terra, especialmente em Fort Canning, revelou padrões decorativos idênticos, fortalecendo a hipótese de que o navio tinha como destino o próprio porto local.

Garrafa intacta com gargalo estreito, durante o processo de limpeza — Foto: Michael Flecker
Garrafa intacta com gargalo estreito, durante o processo de limpeza — Foto: Michael Flecker

Outro indício relevante é a ausência de grandes pratos azul-e-branca com 40 a 50 cm de diâmetro, comuns em coleções históricas da Turquia, Oriente Médio e Índia. No Temasek Wreck, os pratos não ultrapassam 35 cm. Essa característica sugere que a embarcação não se dirigia ao comércio do Oceano Índico, mas sim a um mercado regional.

Como destaca o portal Archaeology News, a composição da carga, que combinava utensílios de mesa de alta qualidade e grandes recipientes para transporte de commodities, indica uma economia urbana ativa, capaz de absorver tanto bens de luxo quanto produtos de uso cotidiano.

Dragão em aplique num prato Longquan 'celadon A' com base assimétrica — Foto: Michael Flecker
Dragão em aplique num prato Longquan ‘celadon A’ com base assimétrica — Foto: Michael Flecker

Nenhuma parte do casco foi preservada, provavelmente devido à ação de correntes e organismos marinhos. Ainda assim, a homogeneidade do material, que era praticamente todo de origem chinesa, levou os pesquisadores a concluir que a embarcação era muito provavelmente feita de junco chinês.

A ausência de artefatos estrangeiros relevantes reforça essa interpretação. Em outros naufrágios da região, navios não chineses costumam apresentar objetos pessoais ou utensílios de bordo de origens diversas — o que não ocorreu neste caso.

Revisão histórica

Por décadas, narrativas populares descreviam a Singapura pré-colonial como uma modesta aldeia pesqueira. O conjunto de evidências do Temasek Wreck oferece um contraponto a essa ideia.

Uma embarcação transportando toneladas de cerâmica fina, incluindo a maior concentração já registrada de porcelana azul e branca da dinastia Yuan em um único naufrágio, dificilmente teria como destino um local que não fosse importante.

Como conclui o estudo, o sítio fornece uma imagem altamente precisa das mercadorias circulando no sudeste asiático no século 14. Por representar um carregamento produzido em um intervalo temporal estreito, o conjunto pode servir como coleção de referência para futuras pesquisas comparativas.

Mais do que um achado arqueológico, o naufrágio consolida a imagem de Temasek como um porto que era integrado a redes comerciais regionais e de longa distância séculos antes da fundação colonial de 1819.

Marcas em potes de armazenamento: escrita chinesa e árabe (esquerda) e escrita Phags-Pa (direita) — Foto: Michael Flecker
Marcas em potes de armazenamento: escrita chinesa e árabe (esquerda) e escrita Phags-Pa (direita) — Foto: Michael Flecker

(Por Arthur Almeida)

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