O padrão de desgaste no dente sugere que ele era pendurado por um cordão e, portanto, provavelmente usado como pingente — Foto: Museu de História Natural de Londre

Um pingente feito a partir do dente de uma foca cinzenta há mais de 15 mil anos está reescrevendo interpretações dos arqueólogos sobre comércio e simbolismo durante o período Paleolítico Superior. , Em artigo publicado na revista científica Science Direct, a equipe de pesquisadores de museus e instituições de pesquisa da Europa acredita que as pessoas daquela comunidade faziam trocas desses colares.

O objeto foi originalmente descoberto entre 1865 e 1880 na Caverna de Kent, em Torquay, no Reino Unido, durante as escavações conduzidas pelo pioneiro da arqueologia William Pengelly. Apesar da importância do sítio, o artefato passou décadas sem identificação precisa até agora. Novas análises revelaram que o dente não pertencia a animais terrestres, como se pensava, mas sim a uma foca, um detalhe que muda completamente o contexto da descoberta.

Mobilidade e redes de troca

A presença de um dente de foca em uma caverna localizada a mais de 100 quilômetros do litoral, distância ainda maior na época devido às mudanças no nível do mar, sugere que esses grupos humanos percorriam grandes distâncias ou mantinham redes de troca complexas.

“Este pingente data de uma época em que houve um florescimento da gravura e de outras formas de expressão artística na Europa”, explica Silvia Bello, uma de nossas especialistas em evolução humana e coautora do estudo, como nota o site do Museu de História Natural de Londres. “Os humanos do Paleolítico Superior parecem ter criado objetos não apenas para fins práticos, mas também estéticos”.

Além disso, o artefato pode indicar interações culturais entre diferentes grupos. Materiais de origem marinha encontrados em regiões interiores já haviam sido registrados em outros sítios europeus, sugerindo circulação de objetos e possivelmente de ideias.

Mais do que um simples ornamento, o pingente pode ter desempenhado um papel simbólico importante. Marcas de desgaste mostram que ele foi usado por muito tempo, provavelmente preso a um cordão, o que indica valor pessoal ou social.

Mais de um século após sua descoberta, foi revelado que o pingente foi feito com um dente de foca — Foto: The Trustees of the Natural History Museum
Mais de um século após sua descoberta, foi revelado que o pingente foi feito com um dente de foca — Foto: The Trustees of the Natural History Museum

“É apenas especulação, mas acho que este pingente de dente de foca pode ter tido algum propósito formal, talvez para mostrar a identidade social do dono”, diz a pesquisadora. A associação com um animal marinho também levanta hipóteses sobre a relação desses grupos com ambientes costeiros, mesmo quando estavam distantes deles.

Tecnologia e habilidade

A fabricação do pingente revela um nível sofisticado de habilidade técnica. O processo envolveu a remoção do dente da mandíbula da foca, o desgaste da raiz e a perfuração precisa com ferramentas de sílex, uma tarefa delicada, já que o material poderia facilmente se quebrar.

Esse cuidado reforça que não se tratava de um objeto descartável. Pelo contrário, sua raridade, apenas quatro outros exemplares semelhantes são conhecidos, sugere que itens como esse tinham alto valor simbólico e talvez fossem até raros marcadores de status.

O estudo abre caminho para novas investigações. Técnicas como análise isotópica e DNA antigo podem, no futuro, revelar a origem exata da foca e, por consequência, mapear rotas percorridas por esses grupos humanos. “Isso nos daria uma ideia muito melhor de para onde esses humanos estavam viajando”, afirma Bello.

(Por Carina Gonçalves)