O trabalho de pesquisadores em analisar, decifrar e digitalizar os escritos em tabuletas antigas pode tornar o conhecimento de civilizações extintas mais acessível ao público — Foto: Troels Pank Arbøll/Universidade de Copenhague

Há cerca de 5,2 mil anos, as primeiras formas de escrita eram registradas em tabuletas de argila por povos antigos da Mesopotâmia (atual Iraque), inaugurando um novo sistema de comunicação que mudaria o rumo da história humana dali em diante – a chamada escrita cuneiforme. Algumas dessas tabuletas existem até hoje, com inscrições ainda pouco claras de um passado distante.

O Museu Nacional da Dinamarca é um dos centros que reúne uma vasta coleção desses registros, que foram recentemente analisados por pesquisadores da Universidade de Copenhague. Textos antigos que passaram por um processo de digitalização agora revelam informações inéditas sobre línguas, leis, encantamentos e até mesmo recibos de cervejas.

Um acervo em descoberta

Iniciativa de trabalhar com as tabuletas vem do projeto Tesouros Escondidos, focado em analisar, apresentar e digitalizar a coleção de objetos gravados em escrita cuneiforme que integram o acervo do museu dinamarquês. A ideia é tornar esses artefatos mais acessíveis ao público, composto tanto por especialistas quanto não especialistas.

escrita cuneiforme é considerada um do sistema de escrita mais antigos do mundo, feito a partir de diferentes sinais cunhados, já que a gravação era feita pela pressão de objetos em forma de cunha em argila úmida. Tratava-se de uma escrita complexa que abrangia várias línguas, como sumério, acadiano e persa antigo.

“Atualmente, o Museu Nacional da Dinamarca abriga a maior coleção dinamarquesa de tabuletas cuneiformes. A coleção foi formada ao longo dos últimos 200 anos e ilustra o papel da Dinamarca na exploração do patrimônio cultural do Oriente Médio. As tabuletas cuneiformes do Museu Nacional da Dinamarca constituem uma coleção diversificada, com alguns textos datando de mais de 4.500 anos”, diz comunicado sobre o projeto encontrado no site oficial do museu.

Apesar de antiga, a escrita cuneiforme possui extrema complexidade por não possuir letras. Ela utiliza entre 600 e 1.000 caracteres impressos em argila para soletrar palavras, dividindo-as em sílabas, enquanto certos sinais representam palavras inteiras — Foto: Søren Greve, Troels Pank Arbøll/Universidade de Copenhague
Apesar de antiga, a escrita cuneiforme possui extrema complexidade por não possuir letras. Ela utiliza entre 600 e 1.000 caracteres impressos em argila para soletrar palavras, dividindo-as em sílabas, enquanto certos sinais representam palavras inteiras — Foto: Søren Greve, Troels Pank Arbøll/Universidade de Copenhague

O conteúdo encontrado nos registros remetem a documentos econômicos do cotidiano, cartas particulares, mensagens de teor religioso, literário, mágico e médico. Um exemplo são as tabuletas da cidade síria de Hama, que tratam de tratamentos medicinais e encantamentos. Elas têm quase 3 mil anos e foram deixadas para trás nos restos do que os cientistas acreditam ter sido uma grande biblioteca de um templo.

“Uma das tabuletas de argila revelou conter um suposto ritual anti-bruxaria, que era de enorme importância para a autoridade real na Assíria, pois possuía a notável capacidade de afastar infortúnios – como a instabilidade política – que poderiam atingir um rei”, afirma Pank Arbøll, pesquisador envolvido no projeto, em comunicado.

Reis míticos e cerveja

Um dos maiores achados marcados em argila foi uma cópia de uma famosa lista régia que menciona figuras históricas e míticas de civilizações antigas. Entre elas está o lendário rei Gilgamesh, figura mítica que acredita-se ter vivido antes mesmo dos registros bíblicos de Noé e do dilúvio.

Arbøll explica que as informações presentes na lista a torna uma das poucas relíquias existentes que sugerem que o protagonista da Epopeia de Gilgamesh realmente pode ter existido.

Por outro lado, também há registros mais mundanos, que retratam atividades cotidianas de povos que viveram a milhares de anos atrás. Os textos encontrados em Tell Shemshara (norte do Iraque) falam sobre processos administrativos, contas e listas de mercadorias.

“Muitas das tabuletas cuneiformes que temos hoje testemunham uma burocracia altamente desenvolvida. Portanto, não é surpreendente que uma das tabuletas da coleção do Museu Nacional contenha algo tão comum quanto um recibo muito antigo de cerveja”, conclui o pesquisador.

(Por Fernanda Zibordi)